Ensino de literatura e o combate a preconceitos

A literatura pode desempenhar um papel decisivo na formação de leitores críticos e na construção de uma educação comprometida com a valorização da diversidade. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado na RELDPro – Revista Educação, Linguagem e Desenvolvimento Profissional, que investigou como uma sequência didática baseada no método recepcional pode contribuir para ampliar o horizonte de expectativas dos estudantes e promover reflexões sobre a cultura afro-brasileira e as religiões de matriz africana.

O artigo O método recepcional como proposta para ampliação do horizonte de expectativas: uma experiência de leitura da literatura afro-brasileira no Ensino Fundamental, de autoria de Gabriela Schwartz Vitório e Pedro Afonso Barth, apresenta uma proposta pedagógica desenvolvida com estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental, utilizando obras da literatura afro-brasileira para estimular a leitura, o pensamento crítico e o reconhecimento da diversidade cultural.

Método valoriza a experiência do leitor na construção de sentidos

A pesquisa fundamenta-se no método recepcional, elaborado por Maria da Glória Bordini e Vera Teixeira de Aguiar a partir da Estética da Recepção de Hans Robert Jauss e da teoria do efeito de Wolfgang Iser. Nessa perspectiva, a leitura deixa de ser um processo de simples interpretação do texto para tornar-se uma experiência construída pela interação entre a obra e as vivências do leitor. Cada estudante mobiliza seus conhecimentos, valores e experiências para produzir novos significados durante a leitura.

A proposta didática foi organizada em cinco etapas: determinação, atendimento, ruptura, questionamento e ampliação do horizonte de expectativas. Ao longo desse percurso, os estudantes tiveram contato com obras que abordam identidade negra, ancestralidade, resistência e religiosidade afro-brasileira, permitindo que novas interpretações fossem construídas gradualmente.

Entre os livros selecionados estão Omo-Obá: histórias de princesas, de Kiusam de Oliveira; Abayomi: o reluzir de encontros preciosos, de Lívia Sant’Anna Vaz e Chiara Ramos; e As Lendas de Dandara, de Jarid Arraes. A escolha das obras buscou combinar qualidade literária, representatividade e potencial para ampliar o repertório cultural dos estudantes.

Literatura promove pertencimento e reflexão crítica

Os resultados evidenciaram que a leitura das obras favoreceu processos de identificação, fortalecimento da autoestima e construção de novas percepções sobre a cultura afro-brasileira. Muitos estudantes reconheceram aspectos de suas próprias histórias nas personagens e passaram a discutir temas como identidade, racismo, ancestralidade, intolerância religiosa e diversidade cultural com maior abertura e senso crítico.

O estudo também demonstrou que atividades práticas, como a produção de diários de leitura, debates e a confecção das tradicionais bonecas abayomi, contribuíram para transformar a leitura em uma experiência coletiva e significativa. Essas estratégias permitiram que os alunos relacionassem os textos literários às suas vivências pessoais, ampliando o envolvimento com as narrativas e favorecendo a construção de novos sentidos.

Outro aspecto destacado pelos pesquisadores foi que as principais resistências à abordagem da cultura e da religiosidade afro-brasileira não partiram dos estudantes. Pelo contrário, a pesquisa constatou uma participação ativa e receptiva da turma, indicando que muitas das barreiras para o desenvolvimento desse tipo de trabalho ainda estão presentes em instâncias institucionais e na própria organização escolar.

Projeto amplia o interesse pela leitura e fortalece a educação para a diversidade

Ao final da sequência didática, os pesquisadores observaram um aumento no interesse dos estudantes pela leitura, bem como uma ampliação do repertório cultural e da capacidade de interpretar textos de forma crítica. O estudo aponta ainda que houve maior reconhecimento da importância da cultura afro-brasileira, da ancestralidade e das diferentes manifestações religiosas como parte da formação histórica e cultural do país.

Nas considerações finais, os autores defendem que a literatura constitui um espaço privilegiado para promover experiências formativas capazes de combater preconceitos, fortalecer identidades e desenvolver o pensamento crítico. Para a pesquisa, quando mediada de forma planejada e sensível, a leitura literária amplia horizontes, favorece o diálogo intercultural e contribui para a construção de uma educação mais inclusiva, democrática e comprometida com a valorização da diversidade.

Leia o artigo completo na Revista Acadêmica RELDPro

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