A permanência dos estudantes na Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem sido influenciada por fatores que vão além do ambiente escolar. Um estudo publicado na RELDPro – Revista Educação, Linguagem e Desenvolvimento Profissional analisa como as transformações no mundo do trabalho, especialmente a expansão da chamada “uberização”, têm dificultado a continuidade dos estudos de jovens e adultos que conciliam formação escolar e atividades profissionais marcadas pela instabilidade.
Intitulado “A dialética do cansaço: neoliberalismo, uberização e os desafios da permanência na EJA“, o artigo, de autoria de João Vítor Sampaio de Moura, discute como jornadas de trabalho flexíveis, porém imprevisíveis, interferem diretamente na frequência escolar, no rendimento acadêmico e na permanência dos estudantes na modalidade.
Trabalho precário desafia o direito à educação
Segundo a pesquisa, a EJA representa uma política pública voltada à garantia do direito à educação para pessoas que tiveram suas trajetórias escolares interrompidas. Entretanto, o cenário contemporâneo impõe novos obstáculos. A expansão das plataformas digitais e das formas flexíveis de trabalho faz com que muitos estudantes precisem priorizar a geração imediata de renda, tornando a frequência às aulas uma tarefa cada vez mais difícil.
O estudo destaca que a lógica da disponibilidade permanente exigida por aplicativos de transporte, entrega e outros serviços reduz o tempo destinado ao descanso, ao convívio familiar e aos estudos. Dessa forma, o direito à educação passa a competir diretamente com a necessidade de sobrevivência econômica.
Além das dificuldades relacionadas ao tempo, o artigo evidencia que a sobrecarga física e emocional também compromete o processo de aprendizagem. O autor denomina esse fenômeno de “cansaço epistemológico”, caracterizado pelo esgotamento que impede o estudante de dedicar atenção e energia às atividades escolares, mesmo quando consegue comparecer às aulas.
Flexibilização curricular pode contribuir para reduzir a evasão
Como alternativa, a pesquisa defende que a superação da evasão escolar exige mudanças na organização da própria EJA. Entre as propostas apresentadas estão a flexibilização curricular, a adoção de itinerários formativos mais adaptáveis às diferentes realidades dos estudantes, o reconhecimento dos conhecimentos adquiridos no mundo do trabalho e o uso de tecnologias educacionais que ampliem as possibilidades de aprendizagem sem substituir a importância do encontro presencial.
O artigo também argumenta que políticas públicas voltadas exclusivamente ao acesso não são suficientes. Para garantir a permanência dos estudantes, torna-se necessário oferecer condições concretas para que eles consigam conciliar trabalho e educação, incluindo ações de assistência estudantil, apoio financeiro e currículos capazes de dialogar com as especificidades da vida adulta e do trabalho informal.
Ao longo da análise, o autor fundamenta sua discussão em referenciais como Paulo Freire, Miguel Arroyo, Ricardo Antunes, Ludmila Abílio e Pierre Dardot, relacionando educação, trabalho e justiça social para compreender os desafios enfrentados pela EJA na atualidade.
Educação como instrumento de emancipação
Nas considerações finais, o estudo reforça que a permanência na Educação de Jovens e Adultos depende não apenas do compromisso individual dos estudantes, mas também da construção de políticas educacionais capazes de reconhecer as transformações do mundo do trabalho. Para o autor, uma educação verdadeiramente inclusiva precisa considerar as condições materiais de vida dos educandos e fortalecer práticas pedagógicas voltadas ao acolhimento, à flexibilidade e à emancipação humana.
