Na quarta edição do AI+Education Summit, realizada em fevereiro de 2026, o Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence e o Stanford Accelerator for Learning reuniram educadores, pesquisadores, especialistas em tecnologia e formuladores de políticas públicas para discutir como a inteligência artificial está redesenhando a educação.
O encontro destacou desafios urgentes e oportunidades que surgem à medida que a Inteligência Artificial (IA) se consolida no cotidiano de escolas, professores e estudantes.
IA provoca crise na avaliação escolar
Um dos pontos centrais do evento foi a chamada “crise da avaliação”. Com ferramentas de IA capazes de gerar textos, projetos e respostas sofisticadas, os produtos finais entregues pelos alunos já não são garantia de que houve aprendizagem real.
“O gargalo é que, na verdade, temos projetos-piloto demais e ainda não implementações suficientes que sejam realmente eficazes.” Susan Athey, professora da Stanford Graduate School of Business e pesquisadora sênior do HAI
Para os especialistas, o foco precisa migrar do resultado para o processo: como o estudante pensa, pesquisa, formula hipóteses e desenvolve seu raciocínio. A IA, nesse contexto, exige novos modelos de avaliação e acompanhamento pedagógico.

Desigualdade no acesso e no uso da IA
Outro tema recorrente foi o impacto desigual da tecnologia. Em escolas com pedagogia estruturada e recursos adequados, a IA tende a potencializar o ensino. Já em contextos com menos estrutura, pode se tornar apenas distração ou ferramenta de consumo passivo.
A diferença entre “consumir” e “criar” tecnologia foi apontada como determinante. Em ambientes mais favorecidos, estudantes aprendem programação, impressão 3D e desenvolvimento de soluções digitais. Em escolas com menos recursos, muitas vezes limitam-se a usar ferramentas prontas.
“Como fazemos para garantir que sejam nossos professores e nossos educadores, especialmente aqueles que trabalham com os estudantes mais marginalizados, que estejam na linha de frente conduzindo a forma como utilizamos a IA?” Wendy Kopp, Fundadora da Teach for All
Especialistas defenderam que educadores comprometidos com equidade e comunidades historicamente marginalizadas participem ativamente do desenvolvimento de aplicações de IA, em vez de apenas recebê-las.
“Se eles têm mais necessidades sociais não atendidas, é possível que se sintam mais atraídos por uma IA que ofereça conexões sociais. Isso pode colocá-los em posições mais vulneráveis, ao depender excessivamente de um relacionamento que não é real.” Pilyoung Kim, professora de psicologia em Stanford e diretora do Brain, Artificial Intelligence, and Child (BAIC)

Alfabetização em IA deixa de ser opcional
A alfabetização em inteligência artificial foi tratada como competência básica. Não basta utilizar ferramentas: é necessário compreender como funcionam, seus limites, riscos e vieses.
Entre as recomendações apresentadas está a adoção de um currículo estruturado que inclua:
- Conceitos fundamentais de IA;
- Compreensão de vieses e “alucinações”;
- Verificação de resultados gerados;
- Técnicas avançadas, como a elaboração estratégica de prompts.
Sem orientação adequada, muitos estudantes acabam usando IA para “encurtar caminhos” na aprendizagem, em vez de aprofundá-la.
Impacto na criatividade preocupa pesquisadores
Pesquisas apresentadas no evento mostraram que o uso da IA pode melhorar o desempenho imediato em tarefas criativas, mas esse ganho não necessariamente se mantém quando o recurso é retirado.
Em alguns casos, estudantes que perderam acesso à ferramenta tiveram queda significativa de desempenho e relataram menor confiança em sua própria criatividade. O dado levanta um alerta: além de apoiar, a IA pode influenciar o autoconceito e a autonomia intelectual dos jovens.
Excesso de ferramentas e falta de estratégia
Apesar da grande oferta de produtos de IA para educação, especialistas apontaram um problema de implementação. Escolas enfrentam dificuldades para avaliar a eficácia das soluções e integrar novas tecnologias de forma sustentável.
Foi defendida a criação de “bens públicos digitais”, como estruturas de avaliação independentes e simulações validadas para testar ferramentas antes de aplicá-las com estudantes reais.

IA não substitui conexão humana
Um dos debates mais sensíveis envolveu o uso de IA para apoio emocional. Dados apresentados indicam que jovens utilizam ferramentas de IA generativa não apenas para tarefas escolares, mas também para buscar suporte, escuta e compreensão.
Pesquisas sugerem que adolescentes com menor qualidade de relacionamento familiar tendem a preferir chatbots com estilo mais relacional, o que pode aumentar a dependência emocional de sistemas que não substituem vínculos humanos reais.
A mensagem final do encontro foi clara: a IA pode ampliar oportunidades educacionais, mas não deve substituir relações humanas, senso crítico e responsabilidade pedagógica.
Fonte: Hai Sstanford University/2026
